Pata de Elefante: um baile de boa música

17 02 2009

Pata de Elefante, por Danilo Christidis

A Pata de Elefante dá um baile de boa música no palco, viaja por todo o Brasil, recebe prêmios e muito retorno positivo da crítica e do público. Com o disco de 2008 “Um Olho no Fósforo, Outro na Fagulha” ainda rendendo shows, a banda já prepara novidades para esse ano. Formada por Gustvao Telles na bateria, Gabriel Guedes e Daniel Mossmann na guitarra e baixo, a Pata de Elefante é referência nacional quando se trata de rock instrumental de bom gosto. Confira a entrevista que a autora deste blog teve com Gustavo e Daniel, publicada na primeira edição do jornal Fábrica Expressa.

ACROSS THE MUSIC: Quando se fala em música instrumental, as pessoas pensam em algo clássico e chato, mas a Pata não se encaixa nenhum pouco nesse estereótipo. Qual o segredo para uma banda como a Pata sobreviver 7 anos e continuar crescendo?
DANIEL: Primeiro, eu acho que esse estereótipo de música instrumental ser chata, veio a partir dos anos 80, mas sempre existiu o rock instrumental legal, onde não são chatos e existem canções. É nisso que a gente se espelha.
GUSTAVO: Isso já existia nos anos 50 e 60,  tanto que os próprios Beatles eram fãs dos The Shadows, por exemplo. E claro, a gente tá aí pra mostrar que a música instrumental não é necessariamente chata. Também pode ser divertida e as pessoas podem dançar e curtir.
D: A rapaziada pegou gosto porque talvez não tivesse uma banda desse tipo e agora estamos aí, né…

Pata de Elefante, por Danilo Christidis

Pata de Elefante, por Danilo Christidis

A: Então o segredo seria seguir essas influências antigas, mas como uma banda de hoje…
G: Claro. Nós nunca tivemos a intenção de ser uma banda retrô e não somos. Mas, obvviamente, a maioria das nossas referências estão no passado, como também temos referências contemporâneas.
D: Seria alguma coisa como Supergrass, porque se tu for ouvir, tá tudo lá o que é antigo, mas é uma banda nova, tem uma sonoridade nova, como o timbre. E as músicas são nossas, então acaba sendo algo novo também.
G: A nossa questão é fazer música boa e autêntica, e isso eu tenho certeza que a gente consegue fazer.

A: Como vocês andam marcando bastante presença em São Paulo, o que vocês percebem de diferente na cena de lá para a de Porto Alegre?
G: É que é diferente. Aqui no Rio Grande do Sul há uma quantidade imensa de bandas e trabalhos  muito legais. Lugares para tocar, showbusiness e até questões de produção aqui, já é um troço bem mais de vagar. Em São Paulo, as coisas acontecem mais e tem muito mais lugares pra tocar. Tem muito mais veículo de comunicação que se focam nisso e vêem as  bandas de um jeito maior. Agora, se falando em qualidade, aqui já é tradicional porque surgem muitas bandas legais. E em São Paulo, vi várias bandas que não me agradam… Mas também porque há uma série de estilos e lá tem espaço pra todo mundo. Aqui, praticamente, tu não existe. Desde que estamos indo a São Paulo todo o mês, as coisas começaram a acontecer bem mais. Tem a questão também que estando lá, facilita ir pra outros lugares. Nós estamos, cada vez mais, tocando pelo Brasil todo. Em 2008, com a divulgação de Um Olho no Fósforo e Outro na Fagulha, fizemos vários shows bacanas em Rio Branco, no Acre, Recife, Cuiabá, interior de São Paulo. Neste ano, com certeza, faremos esses trajetos de novo.

Daniel Mossmann, por João Freitas

Daniel Mossmann, por João Freitas

A: O último CD  ficou entre um dos 25 melhores discos de 2008 na lista da Rolling Stone brasileira. Vocês esperavam um retorno grande como esse?
D: A gente não esperava entrar pra lista da Rolling Stone ou algo parecido, mas a gente percebeu que a resposta do público estava boa nos shows e estávamos recebendo vários comentários. Se tu fores pensar, a história da Rolling Stone foi porque um grupo determinado de pessoas escutou, gostou e nos escolheu. Pessoas que ganham dinheiro pra criticar a música.. (risos)… e também tem muitos blogs e sites que nos dão a maior força.
G: Nós fomos indicados pela lista da MTV também, onde o público entrava no site e votava. E rolou o prêmio Dinamite, em 2008, com esse disco como melhor álbum instrumental. Eu acredito que tudo isso é fruto desse movimento que a gente vêm fazendo entre Porto Alegre e São Paulo.

A: O CD contou com alguma parceria na produção ou foi independente?
D: A produção do disco foi independente, nós que bancamos tudo, fomos pro estúdio e entregamos pronto na mão do selo. A Monstro Discos lançou e ajudou a divulgar o CD.
G: É, a produção do disco foi feita por nós junto com o Vicente Guedes, e a mixagem e masterização ficou por conta do Tomas D.

A: Eu li que vocês vão distribuir algumas músicas em várias línguas e para entidades educacionais e culturais no Brasil e exterior…
G: Em 2007 fomos selecionados para o Rumos Música, um projeto do Itaú Cultural de São Paulo que é muito bacana porque é um mapeamento da música brasileira. Junto com outras bandas selecionadas no Projeto, participamos da gravação de um DVD, em São Paulo. Então, está pra ser lançado esse DVD, com músicas ao vivo do show e uma coletânea, em CD, com músicas de estúdio. Esse material será distribuído para várias instituições em todo o mundo e será lançado em português, espanhol, francês e inglês.

A: Em Porto Alegre, muitas bandas reclamam de não ter lugar pra tocar. Mas, ao mesmo tempo, o público de show está diminuindo. O que vocês acham que está faltando por aqui pra unir o público e as bandas?
G: Eu acho que falta vergonha na cara… (risos)

D: Eu acho que falta divulgação, porque as bandas ficam muito por si. Não que alguém tenha que ir passar a mão na cabeça de cada um, mas, por exemplo, o espaço das rádios, aqui, é bempequeno. Talvez por falta de grana, entre as duas partes, também, não sei…
G:
De um modo geral, está tudo muito fraco na cena de Porto Alegre. Na questão de

Gabriel Guedes, por Rafael Monteiro

Gabriel Guedes, por Rafael Monteiro

organização e estrutura pras coisas rolarem. Talvez, o que está faltando para as coisas começarem a acontecer, é que a situação piore, porque às vezes, infelizmente, as pessoas costumam tomar uma atitude somente quando as coisas ficam muito ruins. Mas essa situação com as bandas não é só aqui, só que tem alguns estados que tem movimentos diferentes. Em Goiás, é muito diferente daqui. As pessoas são aptas por música, porque se tu vais tocar lá, sem depender do teu estilo ou até mesmo sem conhecer as músicas da tua banda, vai ter um público que vai lá pra ver qual é. É uma cena consistente e que o público responde.  Aqui, incluindo nós mesmos, o público é mais fechado.
D: Eu acho até porque aqui já tem uma tradição maior sobre o rock.
G: Por exemplo, tenho vários amigos de bandas de fora do estado. Às vezes eles me ligam, querendo marcar um show aqui e não rola, é imperrado. E aí, as pessoas têm oportunidade de ir tocar em um festival tri bem organizado no Acre! Aí, não tem desculpa pra vir pra Porto Alegre… (risos)
D: Ainda que existem pessoas como o Vitor Lucas, produtor do Beco, que está tentando movimentar alguma coisa na Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN). E, a tendência é ele conseguir mais apoio para talvez, trazer ou motivar festivais por aqui.

A: Quais bandas que vocês curtem muito e indicam para os nossos leitores  conferir?
G: Eu indico os Locomotores, porque além de serem muito amigos meu, são uma banda do caralho. Tem a Dinarte, de Passo Fundo, que é muito afudê também. A Severo em Marcha também, que, aliás, tá com um disco novo muito foda. Eu indico a Pública também, que está com disco e filme-documentário muito bem feitos. Tem os The Dead Rocks, do interior de São Paulo. Os Retrofoguetes da Bahia.

Gustavo Telles, por João Freitas

Gustavo Telles, por João Freitas

A: Quais são os planos da Pata para esse ano?
D: A gente tá tquase terminando de gravar um disco só de baladas e também já estamos ensaiando algumas músicas novas para o próximo disco. Então, provavelmente, teremos dois álbuns novos em 2009.
G: A idéia é lançar um disco novo esse ano, e, o disco de baladas é um trabalho diferenciado, de conceito e tal… E também seguimos divulgando “Um olho no fósforo e outro na fagulha”, plantando e colhendo os frutos do disco.

A: Para finalizar, vamos relembrar um episódio da Pata… Como foi a experiência de ir para o Jô Soares, em 2005, porque é algo diferente do que as bandas independentes estão acostumadas, né?
D: A Monstro Discos fez o contato com a produção do programa e acabamos conseguindo, fomos nós e os Retrofoguetes no mesmo dia. Bah, mas foi muito foda o lance da produção, porque fomos tratados como se fossemos o Zezé di Camargo e Luciano (risos)… Foi muito massa porque tivemos uma idéia do que é um programa profissional, de audiência nacional, e, realmente, uma produção do nível deles faz toda a diferença. Foi tri bom porque muitas pessoas, até hoje, comentam sobre a nossa participação lá…
G: Acho que a tendência é que a gente volte por lá. Logo, logo, acho que iremos de novo.

Veja a Pata de Elefante no Programa do Jô, tocando Pesadelo no Bambu’s, com a participação do lendário King Jim (Garotos da Rua e Trê pra Jazz).